Sucesso nas Primeiras Experiências de Assentamento Remoto de Larvas de Mexilhão.

“Não vemos muito futuro para nosso negócio
de venda de sementes de mexilhão quando os mitilicultores
descobrirem como é fácil produzir sementes em suas fazendas”
(Ted Kuiper,1991.Proprietário da Kuiper Mariculture, Califórnia – EUA)


Por que assentamento remoto de larvas de mexilhão Perna perna?

Esta é uma pergunta que surge à primeira vista. Por que se obter sementes de mexilhão produzidas em laboratório ou a partir de larvas produzidas em laboratório, já que é mais fácil extrair dos estoques naturais (costões) ou capturá-las naturalmente através de coletores artificiais?

É verdade! Coletar do ambiente é muito mais barato, também. No entanto, nem todos os empreendimentos de mitilicultura são capazes de obter sementes através da captura natural em coletores artificiais. Isso porque estão localizados em áreas não propícias ao assentamento de larvas.

Vejam o caso da Fazenda Marinha Atlântico Sul que tem seu parque de cultivo localizado na Costeira do Ribeirão, baía Sul da Ilha de Santa Catarina. Durante um ano monitorou sua área de concessão marinha para descobrir quais as melhores épocas do ano e as quantidades possíveis de serem colhidas. Concluiu que seu parque não oferecia as condições para captação natural de sementes em níveis comerciais.


Outro fato ligado a esse problema de local pouco propício à captação de sementes é, que no Brasil a obtenção de novas concessões marinhas que, no caso, exclusivas para o fim de captação de sementes de mexilhão, está cada vez mais difícil. Isto em função dos entraves burocráticos e legais de liberação de áreas aqüícolas.

Além disso, mesmo em locais com boa capacidade de captação de sementes, ao longo dos anos tem-se verificado oscilações bastante consideráveis nos níveis de assentamento natural verificados.

No que se refere à coleta a partir de raspagem de costões, extração pura e simples dos estoques naturais, essa prática é ecologicamente insustentável. Por outro lado também, produz do ponto de vista de atividade planejada, hiato em vários meses de “semeadura”, naqueles de defeso, quando é proibida por lei a coleta de sementes do costão.

Assim, a produção de sementes na própria propriedade dará uma resposta coerente aos conceitos ambientalistas. Por outro lado dará ao produtor uma fonte estável de suprimento de sementes, além de previsibilidade, e, em conseqüência disso, haverá controle dos custos associados à semente, assim como controle dos custos ligados à falta de sementes.

Por essas razões, a produção de mexilhões a partir de sementes oriundas de uma hatchery ganha impulso quando se vislumbra a produção em escala de qualquer empreendimento.

Assentamento remoto é uma técnica de produção de sementes de bivalves a qual envolve a participação de produtores construindo a infra-estrutura de assentamento em suas fazendas e recebendo carregamentos de larvas olhadas de hatcheries para que processem a etapa final de produção de sementes.

A partir desse conceito, uma hatchery pode produzir bilhões de larvas olhadas de ostra por ano, que podem ser enviadas com facilidade e, com prática, ter uma alta taxa de sucesso de assentamento. A facilidade com que o produtor pode produzir sementes tem revolucionado a produção de moluscos.

Informações quanto às primeiras experiências de assentamento remoto de larvas de mexilhão são escassas, mas já em 1986 uma hatchery da Califórnia (EUA) realizava sua primeira tentativa e, no início da década de 90, esta mesma hatchery produzia de 30 a 40 milhões de sementes de mexilhão da espécie Mytilus galloprovincialiis por ano.

Com referência ao mexilhão Perna perna, vários estudos foram realizados em Santa Catarina até desencadear o processo atual para viabilizar a tecnologia de assentamento remoto.

Santa Catarina é o maior produtor de mexilhões do Brasil com 12.234,1 toneladas
O suprimento de sementes para essa produção catarinense se dá através das seguintes possibilidades:

• Coleta do estoque natural, autorizada ou não, pelos órgãos ambientais;
• Captação natural de sementes;
• Aquisição de mitilicultores que as produzem através de captação natural;
• Desdobre de cordas de produção.

Mas, devido a problemas localizados de suprimento desse insumo, como os já mencionados acima, duas outras possibilidades começam a ser estudadas: aquisição a partir de hatchery comercial e produção através de assentamento remoto. Dessas, a última desponta como mais atrativa pela iniciativa privada.

Durante os anos de 2004 e 2005, a Fazenda Marinha Atlântico Sul (FMAS), em parceria com o Laboratório de Moluscos Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina, iniciou estudos de adaptação da técnica de assentamento remoto para larvas de mexilhão.

Muito pouca modificação foi efetuada em relação ao básico que já é operado para outras espécies. É claro que, características intrínsecas da espécie tiveram que se contempladas. Principalmente no que diz respeito aos requerimentos do substrato de assentamento, coletores


Os coletores utilizados foram cabos de polietileno desfiado, cabos de poliéster desfiado e tranças de rede velha de traineiras. Eram alojados uniformemente no interior do tanque de assentamento, propiciando maior concentração dos mesmos na camada superior da coluna de água.



Aproximadamente 15 dias após o início do assentamento, os coletores com os plantígrados fixados eram alojados em bandejas e levados para a fase de nursery no mar. Essas bandejas tinham as dimensões de 1,5 x 1,5 x 0,075 m e eram revestidas na parte inferior e superior com tela de malha 700 µ. No mar eram alojadas rente à superfície flutuando ao sabor das correntes e marolas, presas a poitas de concreto.


Em intervalos de 7 a 10 dias eram lavadas com água doce através de bomba de pressão para remoção do fouling que se aderira no período.

Os resultados de assentamento, medidos pela estimativa de porcentagem de plantígrados produzidos, sofreram incremento ao longo das experiências realizadas. Resultaram em praticamente nada na primeira, 3.64% na segunda, 4,34% na terceira e 8,68% na quarta.

Foram bastante razoáveis os resultados obtidos na quarta experiência, na qual foi colocado em prática o acúmulo de conhecimento obtido nas experiências anteriores.

O rendimento conseguido nesta última experiência de 8,68% sobre cinco milhões de larvas, representou 434.054 plantígrados produzidos, o que em termos de sistema de produção usual no Brasil (pencas de um metro de cumprimento) equivale à necessidade para a semeadura de 2,4 long-lines.

Sumário dos dados relativos a cada experiência de assentamento de larvas de P.perna está demonstrado na tabela I e ilustrado nas avaliações de rendimento foram realizadas após o fim da fase de nursery.



Além das razões mencionadas no início desse texto, por fim, vale a pena citar que, com o controle da produção de sementes a partir de laboratório, abre-se um campo inexistente até hoje para a mitilicultura brasileira, ou seja, o melhoramento genético.

Será possível o desenvolvimento de estoque de reprodutores com maiores taxas de crescimento, assim como, resistentes a doenças, etc. Essas características poderão ser transferidas às larvas a serem assentadas pelo produtor, através de cruzamentos planejados.

Agradecimentos
Nossos agradecimentos ao Laboratório de Moluscos Marinhos da Universidade Federal de Santa Catarina por ter disponibilizado as larvas de P.perna para a elaboração e execução desse trabalho.

Nelson Silveira Jr.
Abril de 2007.