Por que assentamento remoto de larvas de mexilhão Perna perna?
Esta é uma pergunta que surge à primeira vista. Por que
se obter sementes de mexilhão produzidas em laboratório
ou a partir de larvas produzidas em laboratório, já que
é mais fácil extrair dos estoques naturais (costões)
ou capturá-las naturalmente através de coletores artificiais?
É verdade! Coletar do ambiente é muito mais barato, também.
No entanto, nem todos os empreendimentos de mitilicultura são
capazes de obter sementes através da captura natural em coletores
artificiais. Isso porque estão localizados em áreas não
propícias ao assentamento de larvas.
Vejam o caso da Fazenda Marinha Atlântico Sul que tem seu parque
de cultivo localizado na Costeira do Ribeirão, baía Sul
da Ilha de Santa Catarina. Durante um ano monitorou sua área
de concessão marinha para descobrir quais as melhores épocas
do ano e as quantidades possíveis de serem colhidas. Concluiu
que seu parque não oferecia as condições para captação
natural de sementes em níveis comerciais.
Outro fato ligado a esse problema de local pouco propício à
captação de sementes é, que no Brasil a obtenção
de novas concessões marinhas que, no caso, exclusivas para o
fim de captação de sementes de mexilhão, está
cada vez mais difícil. Isto em função dos entraves
burocráticos e legais de liberação de áreas
aqüícolas.
Além disso, mesmo em locais com boa capacidade de captação
de sementes, ao longo dos anos tem-se verificado oscilações
bastante consideráveis nos níveis de assentamento natural
verificados.
No que se refere à coleta a partir de raspagem de costões,
extração pura e simples dos estoques naturais, essa prática
é ecologicamente insustentável. Por outro lado também,
produz do ponto de vista de atividade planejada, hiato em vários
meses de “semeadura”, naqueles de defeso, quando é
proibida por lei a coleta de sementes do costão.
Assim, a produção de sementes na própria propriedade
dará uma resposta coerente aos conceitos ambientalistas. Por
outro lado dará ao produtor uma fonte estável de suprimento
de sementes, além de previsibilidade, e, em conseqüência
disso, haverá controle dos custos associados à semente,
assim como controle dos custos ligados à falta de sementes.
Por essas razões, a produção de mexilhões
a partir de sementes oriundas de uma hatchery ganha impulso
quando se vislumbra a produção em escala de qualquer empreendimento.
Assentamento remoto é uma técnica de produção
de sementes de bivalves a qual envolve a participação
de produtores construindo a infra-estrutura de assentamento em suas
fazendas e recebendo carregamentos de larvas olhadas de hatcheries
para que processem a etapa final de produção de sementes.
A partir desse conceito, uma hatchery pode produzir bilhões
de larvas olhadas de ostra por ano, que podem ser enviadas com facilidade
e, com prática, ter uma alta taxa de sucesso de assentamento.
A facilidade com que o produtor pode produzir sementes tem revolucionado
a produção de moluscos.
Informações quanto às primeiras experiências
de assentamento remoto de larvas de mexilhão são escassas,
mas já em 1986 uma hatchery da Califórnia (EUA) realizava
sua primeira tentativa e, no início da década de 90, esta
mesma hatchery produzia de 30 a 40 milhões de sementes
de mexilhão da espécie Mytilus galloprovincialiis
por ano.
Com referência ao mexilhão Perna perna, vários
estudos foram realizados em Santa Catarina até desencadear o
processo atual para viabilizar a tecnologia de assentamento remoto.
Santa Catarina é o maior produtor de mexilhões do Brasil
com 12.234,1 toneladas 
O suprimento de sementes para essa produção catarinense
se dá através das seguintes possibilidades:
• Coleta do estoque natural, autorizada ou não, pelos órgãos
ambientais;
• Captação natural de sementes;
• Aquisição de mitilicultores que as produzem através
de captação natural;
• Desdobre de cordas de produção.
Mas, devido a problemas localizados de suprimento desse insumo, como
os já mencionados acima, duas outras possibilidades começam
a ser estudadas: aquisição a partir de hatchery comercial
e produção através de assentamento remoto. Dessas,
a última desponta como mais atrativa pela iniciativa privada.
Durante os anos de 2004 e 2005, a Fazenda Marinha Atlântico Sul
(FMAS), em parceria com o Laboratório de Moluscos Marinhos da
Universidade Federal de Santa Catarina, iniciou estudos de adaptação
da técnica de assentamento remoto para larvas de mexilhão.
Muito pouca modificação foi efetuada em relação
ao básico que já é operado para outras espécies.
É claro que, características intrínsecas da espécie
tiveram que se contempladas. Principalmente no que diz respeito aos
requerimentos do substrato de assentamento, coletores


Os coletores utilizados
foram cabos de polietileno desfiado, cabos de poliéster desfiado
e tranças de rede velha de traineiras. Eram alojados uniformemente
no interior do tanque de assentamento, propiciando maior concentração
dos mesmos na camada superior da coluna de água.
Aproximadamente 15 dias após o início do assentamento,
os coletores com os plantígrados fixados eram alojados em bandejas
e levados para a fase de nursery no mar. Essas bandejas tinham as dimensões
de 1,5 x 1,5 x 0,075 m e eram revestidas na parte inferior e superior
com tela de malha 700 µ. No mar eram alojadas rente à superfície
flutuando ao sabor das correntes e marolas, presas a poitas de concreto.
Em intervalos de 7 a 10 dias eram lavadas com água doce através
de bomba de pressão para remoção do fouling que
se aderira no período.
Os resultados de assentamento, medidos pela estimativa de porcentagem
de plantígrados produzidos, sofreram incremento ao longo das
experiências realizadas. Resultaram em praticamente nada na primeira,
3.64% na segunda, 4,34% na terceira e 8,68% na quarta.
Foram bastante razoáveis
os resultados obtidos na quarta experiência, na qual foi colocado
em prática o acúmulo de conhecimento obtido nas experiências
anteriores.
O rendimento conseguido nesta última experiência de 8,68%
sobre cinco milhões de larvas, representou 434.054 plantígrados
produzidos, o que em termos de sistema de produção usual
no Brasil (pencas de um metro de cumprimento) equivale à necessidade
para a semeadura de 2,4 long-lines.
Sumário dos
dados relativos a cada experiência de assentamento de larvas de
P.perna está demonstrado na tabela I e ilustrado nas
avaliações de rendimento foram realizadas após
o fim da fase de nursery.

Além das razões mencionadas no início desse texto,
por fim, vale a pena citar que, com o controle da produção
de sementes a partir de laboratório, abre-se um campo inexistente
até hoje para a mitilicultura brasileira, ou seja, o melhoramento
genético.
Será possível o desenvolvimento de estoque de reprodutores
com maiores taxas de crescimento, assim como, resistentes a doenças,
etc. Essas características poderão ser transferidas às
larvas a serem assentadas pelo produtor, através de cruzamentos
planejados.
Agradecimentos
Nossos agradecimentos ao Laboratório de Moluscos Marinhos da
Universidade Federal de Santa Catarina por ter disponibilizado as larvas
de P.perna para a elaboração e execução
desse trabalho.
Nelson
Silveira Jr.
Abril de 2007.